Sou dependente afetivo?

Categoria: A PSICOLOGIA E SEUS MISTÉRIOS *por Patrícia Pires de Matos

Data: 06/02/2020


Sou dependente afetivo?



Afinal o que é dependência afetiva? A dependência afetiva é uma estratégia de rendição conduzida pelo medo com a finalidade de preservar as coisas boas que a relação oferece. Sob o disfarce de amor romântico a pessoa dependente afetiva sofre uma alteração profunda na sua personalidade de modo gradual até se transformar numa espécie de “apêndice” da pessoa amada. Ela obedece e se subordina ao amado para evitar o sofrimento. Eis algumas expressões comuns dessa condição do vício afetivo: “Minha existência não tem sentido sem ela”; “Vivo por ele e para ele”; “Ele é tudo pra mim”.
Muitas vezes as relações são nocivas e as pessoas  são incapazes de por um fim nela. Em outros, a dificuldade reside numa incapacidade para lidar com o abandono ou a perda afetiva. Ou seja, não se conformam com o rompimento ou permanecem, inexplicável e obstinadamente, numa relação desfavorável.

Quando o bem-estar da presença do outro se torna indispensável, a urgência em encontrar o amado não o deixa em paz, e o universo psíquico se desgasta pensando nele. Isso é o mundo dos dependentes afetivos. Podemos dizer que por trás de toda dependência há medo e, subjacente a isso, algum tipo de sentimento de incapacidade. Por exemplo, se não me sinto capaz de tomar conta de mim mesmo, terei medo de ficar só e me apegarei às fontes de segurança disponíveis representadas por diferentes pessoas. O apego é a muleta preferida do medo, um calmante com perigosas contra-indicações.

Alguns critérios podem ajudar na auto-avaliação quanto à condição de dependência afetiva:

a) Apesar do maltrato, a dependência aumenta com o passar dos meses e dos anos;

b) A ausência do amado ou não poder ter contato com ele produz uma total síndrome de abstinência que, além de tudo, não pode ser resolvida com nenhuma outra “droga”;

c) Existe um desejo persistente de deixá-lo, mas suas tentativas são infrutíferas e pouco contundentes;

d) Investe uma grande quantidade de tempo e esforço para poder estar com ele, a qualquer preço e passando por cima de tudo;

e) Devido ao relacionamento, sofre uma clara redução e alteração de seu desenvolvimento social, profissional e recreativo;

f) Segue alimentando o vínculo, apesar de ter consciência das graves repercussões psicológicas para sua saúde.


Uma pessoa apegada cria um grande desperdício  de recursos para reter a sua fonte de gratificação. Seu repertório de estratégias de retenção, de acordo com o grau de desespero e a capacidade inventiva pode ser diversificado, inesperado e perigoso. Temos dois tipos de dependentes afetivos:

1-Ativo-dependentes: podem se tornar ciumentos e hipervigilantes, ter ataques de ira, desenvolver padrões de comportamentos obsessivos, agredir fisicamente ou chamar a atenção de maneira inadequada, inclusive mediante atentados contra a própria vida. Nesse caso se enquadram os casos de ciúmes patológico conhecido também como síndrome de Otelo.

2-Passivo-dependentes: tendem a ser submissos, dóceis e extremamente obedientes para tentarem ser agradáveis e evitar o abandono. O sujeito dependente afetivo concentra toda a capacidade de prazer na pessoa “amada”, às custas do restante da humanidade. Com o tempo, essa exclusividade vai se transformando em fanatismo e devoção: “Meu parceiro é tudo”. A pessoa vive a vida do outro.

A dependência afetiva faz adoecer, incapacita, elimina critérios, degrada e submete, deprime, gera estresse, assusta, cansa e exaure a vitalidade.

A terapia cognitivo-comportamental ajuda o dependente afetivo no autocontrole para que, ainda que necessite da “droga”, seja capaz de brigar contra a urgência e a vontade. Na terapia deve aprender a superar os medos que se escondem por trás do apego irracional, melhorar a autoeficácia, levantar a autoestima e o autorrespeito, desenvolver estratégias para resolução de problemas e para ter maior autocontrole. E tudo isso a pessoa fará sem deixar de sentir o que sente pelo amado. Dentre as várias técnicas usadas no tratamento cognitivo-comportamental para a dependência afetiva destacam-se:

(1) Psicoeducação: o terapeuta auxilia o paciente a compreender a natureza da relação e as consequências da dependência afetiva na sua vida, além dos fatores predisponentes e mantenedores dela.

(2) Reestruturação cognitiva: o paciente aprende a substituir suas crenças, regras e atitudes disfuncionais que geram e perpetuam a dependência afetiva por modos de pensar mais saudáveis e adaptativos;

(3) Vivências Emocionais: Uso de imagens mentais e dramatizações auxiliam o paciente a compreender emocionalmente e mudar seus esquemas (vulnerabilidades emocionais) que levam a dependência afetiva;

(4) Ruptura dos padrões comportamentais de submissão e dependência com o treinamento de habilidades de assertividade e de solução de problemas;

(5) Treino de relaxamento e de técnicas de distração comportamental para usar quando a ansiedade se tornar um problema iminente durante as tentativas de mudança;

(6) Programação de atividades que proporcionam prazer  para aumentar a eficácia pessoal e validar o sucesso e o prazer derivados de experiência modificada.

Patrícia Pires de Matos – Psicóloga Cognitivo Comportamental e Psicopedagoga E-mail: patipmpsico@yahoo.com.br. Telefone (s): 17 3323-1259/ 98118-2003/ 99129-1084